
O empresário Porcino Júnior viveu, provavelmente, o
período mais intenso de sua vida, marcado pelo sofrimento do sequestro do seu
filho Porcino Segundo, o “Popó”, de 19 anos. Foram 37 dias intermináveis, de
tensão, dor e incertezas, mas que também deixaram lições. O fim do sequestro
mais longo da história do Rio Grande do Norte, faz Porcino refletir sobre a
vida: “A partir de agora tudo será diferente. Vou tudo que não fazia. Popó
nasceu de novo; eu também”, afirma o empresário nessa entrevista exclusiva
gravada para o “Cafezinho com César Santos”. Na sala de seu apartamento em
Natal, Porcino Júnior falou tudo sobre o sequestro, detalhando fatos até aqui
desconhecidos de todos. Ele diz como Popó foi sequestrado, o sofrimento no
cativeiro, a negociação com os sequestradores, a pressão psicológica, os
momentos tensos e a felicidade de ter o filho de volta. Leia:
Como o sr. foi informado do sequestro do seu filho?
Eu estava em Veneza (nordeste da Itália) quando recebi a ligação da minha
família. Foi um desespero. Viajei imediatamente de volta para o Brasil. Cheguei
em 24 horas. Daquele dia para cá fiquei aqui em Natal e decidi que só retornaria
para Mossoró com o meu filho Popó. Fiz esse pacto com Deus. Minha mulher
(Rosane Caminha) ajudou muito, meu irmão Fábio foi meu companheiro, esteve ao
meu lado o tempo todo, não saiu de perto de mim um só instante. Entregamos a
nossas empresas a Deus, esquecemos esse lado, porque a única coisa que
interessava era a volta de Popó. Eu dizia todo dia: tanto faz ter ou não
empresa, eu quero é meu filho de volta.
Quando e como foi o primeiro contato dos sequestrados?
Eles me ligaram catorze ou quinze dias depois de levarem Popó. Foi um
verdadeiro massacre, porque passamos duas semanas sem saber de nada. Antes disso
houve muito trote, muita gente se aproveitou da situação para tentar obter
alguma coisa. Devo reconhecer a postura correta da imprensa, dos jornais, dos
blogs que trabalharam com responsabilidade, que nos ajudaram muito. A imprensa
foi sensacional. Então, no primeiro contato eu pedi para falar com meu filho e
eles não deixaram. Eu disse que só negociava alguma coisa se falasse com Popó,
para ter a certeza que ele estava vivo, mas eles não me atenderam. Foi um
sofrimento muito grande, um verdadeiro massacre a mim, a minha família e aos
nossos amigos.
A partir daí, como foi que o sr. passou a agir? Recebeu orientação da
polícia?
Tomei a decisão que não iria colocar a polícia no meio, porque eles ameaçaram
matar Popó se eu acionasse a polícia. Chamei a minha família, comuniquei a
decisão e disse: agora seja o que Deus quiser. A partir daí enfrentamos uma
pressão psicológica muito grande. Os sequestradores ameaçaram muito; eles diziam
que iriam castigar Popó, arrancar orelha, dedo, mandar os pedaços para a
família. Nós resistimos, com muita força e fé em Deus, mas não foi fácil.
Nos 37 dias de sequestro o sr. conversou muito com os sequestradores?
Como era feito esse contato?
Por incrível que pareça eles só fizeram cinco contatos. E na última vez foi
que disseram quanto queriam para libertar Popó.
Eles pediram quanto?
Eles começaram pedindo 2 milhões de reais. Eu disse que não tinha esse dinheiro.
Eles pressionaram, mas continuei dizendo que não tinha, não tinha, não tinha.
Daí, eles começaram a baixar o pedido para 800 mil, 700 mil, 300 mil, e por
último aceitavam receber até 170 mil reais. Essa negociação se estendeu não foi
tanto pelo dinheiro, mas sim porque eu queria ter a certeza que Popó estava vivo
e eles não me davam qualquer prova para eu me acalmar. Eu dizia que só
negociaria com a certeza que meu filho estava vivo e eles se negavam a fazer o
que eu pedia. A prova não vinha. Eu dizia para eles: eu não quero saber quanto é
que vocês querem, eu quero saber do meu filho. Diga pelo amor de Deus onde está
o meu filho, mas eles não me atendiam. Falavam apenas que Popó estava bem, e
diziam que se eu não atendesse o pedido deles, mandariam um pedaço da orelha ou
do dedo do meu filho.
Eles exigiam o que mais?
Que a polícia não fosse chamada. Eu dizia: a polícia não está envolvida; só
estamos eu e Deus aqui, mas eles não acreditavam. Eu dizia para eles que a nossa
família estava arrasada; que a minha mãe estava hospitalizada, e que não iríamos
colocar a vida de Popó em risco chamando a polícia. Daí, eles passaram a se
concentrar apenas no dinheiro, mas eu não aceitei pagar qualquer valor de
resgate porque não havia provas de que Popó estava vivo. Eu cheguei a propor a
eles o seguinte: se vocês responderem a pergunta que eu vou fazer agora, eu
aceito negociar. Perguntei para onde eu havia levado Popó recentemente, que só
eu e Popó sabíamos, mas eles não responderam. O pior é que nesse dia, antes de
desligar, os sequestradores disseram que só me ligariam de novo depois de 60
dias e que iriam multiplicar o valor pedido. Nos aguardem, diziam eles. Aí eu me
acabava.
O sr. pensou em pagar o resgate?
César Santos, para ser sincero, eu tinha fé que Popó ia fugir do cativeiro.
Eu acreditei nisso, porque Popó é muito simples, muito humilde e carismático, e
que certamente iria ganhar a confiança dos sequestradores. Eu aprendi nesse
tempo todo que existe a síndrome de Estocolmo, onde nos sequestros as vítimas
podem se aproximar dos sequestradores. Meu psicólogo me dizia: “Popó já está
estocolmizado”. Eles fizeram amizade e foi exatamente isso que aconteceu. Popó
ganhou a confiança deles porque não deu trabalho. Numa das ligações, um
sequestrador confirmou, ao dizer que estava me ligando porque Popó havia pedido.
Disse que Popó era um menino muito bom, que as pessoas nas redes sociais (eles
acompanhavam tudo pela internet) estavam torcendo por ele, porque era um menino
muito querido e que não merecia sofrer. Daí, tive a esperança que tudo ia acabar
bem.
A última ligação dos sequestradores foi feita quando?
Ontem (terça-feira), às 9 horas e 39 minutos da manhã. Eu estava fazendo os
exames. Quem atendeu foi o meu psicólogo. O cara (sequestrador negociador) foi
pesado. Disse: “Vocês tão é brincando, né? Agora avise aí a Júnior que só vou
ligar daqui a 60 dias. Vocês estão brincando comigo, eu sei que ele está aí ao
seu lado”. Fiquei arrasado. A minha sorte foi o meu psicólogo, que me acalmava
dizendo que eu não me preocupasse porque esse é o modus operandi dos
sequestradores. Mas eu pedi para falar com os sequetradores e com meia hora
depois veio a nova ligação. Eles estavam apressados, queriam resolver naquela
hora, acho que estavam prevendo a ação da polícia, como de fato ocorreu. Fizeram
novas propostas, baixaram o valor pedido, foi mais pressão, mas eu não cedi. Eu
tinha a convicção de que as coisas seriam resolvidas sem precisar pagar
resgate.
Essa orientação de não pagar o resgate foi da polícia?
Não. Ficamos afastados da polícia desde o primeiro momento. A polícia fez um
excelente trabalho longe da gente, em silêncio, de forma eficiente, tanto que
resolveu o sequestro com muito sucesso. Nesses 37 dias, pode acreditar, eu
estava num “cativeiro” sem saber de nada. Popó preso lá e eu preso aqui. Não
tinha contato com a polícia. E o pouco que eu sabia não dizia a ninguém, nem
para minha família, nem para os amigos, porque poderia atrapalhar. O nosso
silêncio acabou criando uma rede de mentiras. Disseram que eu estava no shopping
com meu filho, que eu estava viajando para os Estados Unidos, que eu havia pago
10 milhões de reais para os sequestradores e muitas outras coisas. Isso foi
muito ruim. Cada mentira dessa, os sequestradores descontavam em Popó. Eles
acompanhava tudo pela internet.
Qual o momento mais tenso?
Foi na penúltima ligação. O negociador (sequestrador) disse: “Você esqueça do
seu filho”. A pressão foi grande demais. Naquele momento achei que tudo ia
acabar. Como eu não cedi ao pedido de resgate e o tempo estava passando, eles
estavam dispostos a tudo. Esse foi o momento mais difícil. Outro momento crítico
foi quando eu pensei o que poderia acontecer com Popó se ele tentasse fugir ou
no momento que a polícia iria estourar o cativeiro. Eu pedi a Deus que não
deixasse acontecer nada de ruim com Popó e graças a Deus fui atendido. Agora
estamos aqui vivos, com saúde e dispostos a viver muito.
E o momento mais marcante?
Teve dois momentos que me marcaram para o resto da vida. O primeiro, quando
eles colocaram Popó para falar ao telefone. Foi na quarta ligação. Eles mandaram
Popó ligar para mãe (Monalisa Sales) e depois para falar comigo. Quando ouvi a
voz de Popó pensei que ele tivesse conseguido fugir, que era o meu sonho. Mas
Popó disse: “papai diga quanto o senhor tem em dinheiro, venda as minhas coisas
e pague logo esse resgate porque eles vão me matar.” Dai, começou a chorar; ele
estava com medo. E pedi para ele ter calma que tudo terminaria bem. Ai o
bandidoo tomou o telefone e disse: tá vendo aí, seu filho está sofrendo, você
vai matar seu filho mesmo. Você só vai acreditar quando eu mandar os pedaços
dele. Em seguida, passou o telefone outra vez para Popó, que me disse “pai
resolva logo isso, não aguento mais sofrer. Faça o que senhor puder. Faça logo.”
Esse momento me marcou muito. O outro foi quando a delegada Sheyla me ligou e
disse que estava trazendo meu filho de volta para casa, vivo e sem nenhum
arranhão. Ele chegou aqui ainda acorrentado, mas feliz porque estava voltando
para os nossos braços.
Esse tempo todo a espera de ligação, como o sr. ocupava o
tempo?
Eu li muito sobre sequestro. Através da internet, de livros, de reportagens,
procurei saber detalhes desse mundo cruel. Eu tinha que conhecer um pouco de
como enfrentar o problema. Me preparei para conversar com os sequestradores,
para enfrentar a situação. Busquei todas as informações possíveis. Chegou o
momento em que eu treinei para conversar com os sequestradores, para que fosse
possível sequenciar o diálogo sem que prejudicasse a vida do meu filho. Esse foi
um ensinamento forçado, mas que eu tive que aprender.
Como o sr. viu a ação da Segurança Pública do Rio Grande do Norte no
caso?
Foi sensacional. A população deve valorizar mais as nossas polícias. A ação
deles salvou a vida do meu filho. Popó mesmo me disse que nunca havia visto, nem
em cinema, uma ação tão espetacular e profissional como a realizada pela polícia
na hora que estourou o cativeiro. Popó contou que tinha terminado de almoçar,
tava no quarto quando ouviu o pipoqueiro de granada, de bomba, de bala. Meu
filho só fez sentar e rezar. Dai a pouco ouviu a pergunta: é você que é Popó?
Sim, sou eu, ele respondeu. E a voz firme anunciou: sou a polícia, vamos, você
está livre. Na mesma hora, a delegada Sheyla, que é uma pessoa humana,
sensacional, competente, me ligou e disse que estava com meu filho. Considero
ela agora a segunda mãe de Popó. Lembro que no início do sequestro eu disse para
delegada que saísse do caso e nos deixasse só. Ele respondeu: “Se precisar de
mim é só chamar.” E antes de sair me disse que era mãe e que iria trazer meu
filho de volta vivo.
E agora, Porcino Júnior, como será a vida daqui pra
frente?
Rapaz, a partir de agora a vida vai mudar muito.Vou começar a viver, fazer
coisa que eu não fazia, porque me dedicava muito ao trabalho. (pausa, choro).
Trabalhei muito na minha vida, mas agora vou fazer diferente, vou viver mais,
ter uma nova vida. Popó nasceu de novo e eu nasci de novo. Vamos aproveitar mais
e melhor as nossas vidas.
Para concluir, nesse momento o sr. conheceu os amigos de
verdade?
Não tenha dúvida. Nunca pensei que existe tanta gente que gosta de mim, dos
meus filhos, da minha família. Pessoas que oraram por Popó em Mossoró, no Rio
Grande do Norte, no Brasil e fora do Brasil. Quero agradecer a todos.
Reconhecer o empenho do Governo do Estado, da polícia do Rio Grande do Norte, da
imprensa que foi sensacional. Quero agradecer a minha mãe, dona Noilde, que
sofreu muito. A minha mulher, sempre ao meu lado. Aos funcionários que tocaram a
nossa empresa com competência e zelo. E, principalmente, ao meu irmão Fábio. Ele
esteve sempre ao meu lado, largou tudo para ficar comigo. Ficamos ainda mais
unidos. Muito obrigado a todos.
sexta-feira, julho 27, 2012
Alessandru





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